Dra Tilde Froes e a Ultra Gestacional

Dra Tilde Froes é dessas pioneiras que, em determinado momento, não viram outra saída ao crescimento profissional senão a de sair do Brasil para, lá fora, desbravar o (avançado) mundo do diagnóstico por imagem. Mas ela voltou e, melhor ainda, resolveu compartilhar o aprendizado. Hoje, professora de Diagnóstico por Imagem da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Dra Tilde auxilia dezenas de orientados e lidera a linha de pesquisa que está repensando o potencial da ultrassonografia gestacional em cadelas. Seus artigos (em coautoria com outros profissionais) já estampam as páginas do Journal of Small Animal Practice (JSAP).

 

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do CRV Imagem, Dra Tilde fala do início da trajetória profissional, entra em detalhes sobre suas linhas de pesquisa e, como boa professora, recomenda vários artigos. Confira!

 

 

Dra Tilde, obrigado por conceder esta entrevista. Como foi sua escolha pela área em diagnóstico por imagem? Qual foi sua maior dificuldade para trilhar este caminho?

Olá! Eu que agradeço ao CRV Imagem e sua equipe, afinal adoro contar histórias. Sabe que nunca fui muito dedicada durante os primeiros anos da graduação?! Esquisito né?! Pensar em ser professora então era uma das minhas últimas possibilidades. Inicialmente, pensava em trabalhar com equinos, até porque fazia equitação (salto) e tinha muita afinidade com a espécie. Em 1994, como que de repente, assisti a um exame de ultrassonografia de gestação realizado pela profa Janis Gonzalez, e aquilo me encantou. Então, decidi. Resolvi me envolver completamente nos estudos e aprendizado de clínica de pequenos animais e depois diagnóstico por imagem.
 

A maior dificuldade na época era ter pessoas disponíveis a ensinar, já que a ultrassonografia era recente no Brasil, com poucos ultrassonografistas disponíveis. Poucas escolas possuíam o equipamento e praticamente a disciplina de diagnóstico por imagem, naqueles tempos, consistia em radiologia. Porém, esses desafios me fizeram crescer. Com orientação da profa Janis me dediquei a aprender bastante clínica, ter conhecimentos básicos de cirurgia e, óbvio, me dedicar à radiologia e à ultrassonografia. Esses passos foram os diferenciais para uma boa carreira.
 

Em 1996, já completamente decidida pelo diagnóstico, fui para a Universidade de Tufts, em Massachusetts, nos EUA, fazer estágio em ultrassonografia, sob a orientação da professora Dominique. Ali, decidi pela carreira acadêmica, não necessariamente, no início, pela vontade de dar aulas, mas sim pelo gosto em estar no “mundo acadêmico” e em um hospital veterinário, com equipamentos de imagem e equipe disponíveis para consolidar meu aprendizado.
 

Só que o mundo dá grandes chances, e hoje uma das coisas que mais me realiza é ensinar. As aulas práticas são grandes oportunidades de trocar, dar risadas e tomar um bom chá (um hábito adquirido aqui em Curitiba por conta do friozinho constante).

 

 

Você tem publicado muitos artigos relevantes e com repercussão mundial. Pode nos contar resumidamente sobre suas atuais linhas de pesquisa?

Bom, esses são os seus olhos! Acredito que as nossa linhas de pesquisas vão mudando pra melhor. Foram vários anos escrevendo para se conseguir publicar um primeiro artigo internacional na JSAP sobre o uso da ultrassonografia na detecção de processo obstrutivo intestinal. Sempre gostei de pesquisas aplicadas à prática diária, até porque é mais difícil no Brasil acompanhar as evoluções tecnológicas da imagem. Então, das nossas dúvidas diárias vamos tirando ideias e tentando, também, nos adaptar à falta de recursos.

 

Temos um grande numero de vertentes de pesquisa que, com o crescimento da quantidade de orientados, só tende a aumentar, já que há mais dúvidas e contribuições. Aos poucos, vamos construindo uma “casa”.

 

Relacionados a nossas linhas de pesquisas, estes são os projetos que chamamos de “guarda-chuvas”:

  1. Avaliação da eficácia clínica da técnica imaginológica no abdome de cães e gatos (aqui incluindo os projetos de ultrassonografia gestacional);
  1. Erros no diagnóstico por imagem em medicina veterinária: causa e efeito;
  1. Contribuição do diagnóstico por Imagem em animais exóticos e pets selvagens;
  1. Doenças respiratórias em cães e gatos: ocorrência e análise comparativa da eficiência das técnicas diagnósticas complementares;
  1. Impacto e eficácia do diagnóstico por imagem em equinos.

 

 

Algumas de suas ultimas publicações trataram de acompanhamento gestacional em cadelas. O que está mudando nessa área? Há algo novo?

Como ultrassonografistas sempre tivemos algumas questões não inteiramente respondidas pela literatura, sobretudo por conta da evolução tecnológica do ultrassom. As perguntas com que todo ultrassonografista se depara durante o exame gestacional geralmente são:

1. Qual a idade gestacional?;

2. Quando posso marcar a cesariana?;

3. Está pronto para nascer?;

4. Dá para ver o sexo?

 

Em conjunto com a observação bem precisa de dados e com a evolução dos equipamentos ultrassonográficos, tentamos responder a esses questionamentos e, de forma prática, auxiliar o clínico. Tudo é ainda muito novo, tratam-se de dados ainda a ser consolidados. Porém, aparentemente, temos aplicado na rotina com grande sucesso.

 

Os artigos desenvolvidos são:

 

Basta procurar pelo nome do pesquisador, no site www.researchgate.net, para ler os artigos na íntegra.

 

De todos esses artigos de gestação supracitados, um que considero imprescindível de se ler é o primeiro, que trata da aceleração e desaceleração da frequência cardíaca (FC) fetal quando próximo ao parto. Há uma redução da FC abaixo dos padrões antigamente utilizados para o sofrimento fetal, chegando a 110-120bpm por minuto. Porém, após alguns minutos, a FC sobe, correlacionada à contração uterina materna. Então, não devemos interpretar uma única aferição da FC em um só momento como sofrimento fetal, e sim acompanhar pelo menos por 3-5 minutos esse mesmo feto para ver se ocorre a aceleração da FC fetal novamente, e aí descartar sofrimento fetal. É sempre importante não se precipitar na interpretação para não prejudicar toda a ninhada.

 

 

Poderia comentar um pouco sobre os avanços recentes na sexagem de cães e gatos pelo exame ultrassonográfico?

Bom, esse assunto é bem interessante. Durante um exame acompanhado pelo pai de uma orientada, a Elaine Gil, o Dr. Donato Gil (ultrassonografista obstetra humano) começou a fazer algumas observações sobre o assunto. A partir daí, surgiu uma ideia, que foi crescendo. Hoje, temos formatos método e material bem interessantes, que conseguem suportar a nossa teoria de definição do sexo fetal em cães.

Em linhas gerais, explico abaixo:

 

CRV Imagem, Dra Tilde Froes, Ultrassonografia Gestacional

Figura já publicada na dissertação de mestrado de Elaine Gil.

Imagem ultrassonográfica de feto canino no plano longitudinal, desenho esquemático do posicionamento fetal intrauterino e fotografia do filhote. (A) Presença de linhas hiperecóicas com forma piriforme e uma linha central, que representam os grandes lábios (seta); (B) Desenho esquemático da posição dos membros fetais, que permite uma janela ecográfica para a análise. (C) Fotografia das pregas labiais vulvares do filhote fêmea logo após o nascimento.

 

Referência: Use of B-mode Ultrasonography for Fetal Sex Determination in Dogs. Theriogenology, v. 84, p. 875-879, 2015.

 

A Ciência está sempre se atualizando e, recentemente, um grupo francês publicou um artigo que trata da sexagem ultrassonográfica em cães utilizando a distancia do tubérculo como referência. Vamos testar o método também! Segue link para o artigo: Early sex determination in the canine foetus by ultrasound and PCR in Animal Reproduction Science 165 Nov, Prugnard et al. 2015.

 

Bom, vou terminar por aqui! Não poderia deixar de agradecer a Deus, à Universidade na qual trabalho — Universidade Federal do Paraná (UFPR) —, ao DMV, ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFPR, ao CNPq e ao Capes. Aos meus orientados, desde os graduandos estagiários do setor, os ICs, monitores, residentes, mestrandos e doutorandos. Já tenho uma grande família de pós-graduandos. Este ano, estou feliz pela defesa da minha primeira doutoranda, logo mais em março. Daniela Aparecida Ayres Garcia, será em breve, vamos debutar!

 

 

Dra Tilde, algum conselho para os profissionais da área?

Sempre faça o seu melhor aos olhos de Deus, assim não é precisa se preocupar em agradar a todos, e sim será o melhor! Ame o que faz. Ser imaginologista é adorar ficar no escuro, fazendo jogo do sete erros, montando quebra-cabeças com a imagem, para construir o caminho mais rápido para a elucidação diagnóstica.

 

Obrigado, Dra Tilde.

Beijos em todos.

 

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