O mundo silvestre da Dra Loide Machado

Ainda cursando a faculdade, a então estudante de Veterinária Loide Machado disse para a sua futura chefe que nunca tinha entrado na loja dela porque detestava ver as aves presas. “Acho que ela me achou um desafio e terminei contratada”. Como gerente da tal loja de animais, ela abraçou a causa dos silvestres: “um mundo se abriu”. Hoje, sócia da Prosilvestres ao lado dos médicos Julio Arruda e Rafael Nudelman, Dra Loide faz um balanço sobre a especialização, a evolução da adoção de silvestres como pets e o desafio de encarar casos que ainda não chegaram aos livros de referência!

 


Dra Loide, obrigado por conceder esta entrevista. Quando você soube que seria veterinária?

Decidi ser veterinária aos 9 anos de idade, logo após passar a fase de bailarina e professora. Nunca mais mudei de ideia!

 

Como foi a sua trajetória profissional até aqui?

Posso dizer que sou uma pessoa de sorte, sempre trabalhei em boas clínicas. Dois meses antes de me formar eu já fazia estágio no IEMEV como um curso preparatório para plantonista. No papel, eu começaria light, com 2 plantões mensais. Quando me dei conta, tinha feito 16 plantões. Fiquei lá por quase 3 anos, fui chefe da internação, trabalhava muito mesmo, mas sempre com prazer! Fui funcionária da Cane e Gato, da Animália, e recebi proposta para atuar no Hospital Veterinário Botafogo. Sempre trabalhei como clínica e plantonista, e foi na internação que realmente aprendi a ser médica veterinária. É cansativo, mas extremamente gratificante.

 

Por que optou por trabalhar com silvestres?

Essa história é curiosa. Sempre achei que faria especialização em felinos. Durante a faculdade, acabei como gerente de uma loja de animais. Consegui o emprego apesar de ter dito, na entrevista, que nunca entrava na loja porque detestava ver todas aquelas aves presas. Acho que a dona me considerou um desafio e me contratou!

Acabei me tornando a primeira gerente a abraçar a causa das aves na loja. O que me deixou numa grande crise existencial, pois estava certa de que seria uma veterinária gateira. No fim das contas, entre gatos e silvestres, fui com os últimos. Afinal, de felinos eu já entendia e tinha manejo. Os silvestres, ao contrário, eram um novo mundo que se abria. Não me arrependo de nada!

 

Quais são os maiores desafios de lidar com silvestres?

Em primeiro lugar, a velocidade com que os casos evoluem. Geralmente, as pessoas percebem menos os sinais das doenças e, quando o paciente chega à clínica, a evolução para a piora pode ser rápida.

Um segundo desafio é trabalhar com tantas espécies diferentes em suas anatomias e fisiologias, mesmo dentro do mesmo grupo. A realização de exames também é limitada, por conta do tamanho diminuto dos animais e/ou dificuldade de vias de acesso ao paciente.

 

 

Nos últimos tempos, vemos um número cada vez maior de silvestres adotados como pets. De que forma esta maior incidência de pacientes afetou a rotina da Prosilvestres? Estamos vendo novas doenças, diagnósticos ou tratamentos?

Não muito! Talvez, pela localização da Prosilvestres, em Copacabana, nossa equipe atenda um número maior de calopsitas e coelhos, silvestres de maior incidência na Zona Sul.

Somos especializados em silvestres, então muitos dos veterinários nos encaminham casos que não conseguiram solucionar por completo. Aparecem casos complicados como abscessos de absurda resistência bacteriana e localização quase inoperável, neoplasias incomuns para a espécie afetada, alergias variadas que chegam a causar convulsões por prurido, e por aí vai.

Hoje, para chegarmos a um diagnóstico fazemos muito mais exames do que no passado, tanto em quantidade quanto em variedade. Utilizamos terapias e medicamentos que muitas vezes não estão nos livros de referência, porque ninguém nunca viu aquela doença ou o procedimento comum já foi utilizado antes e sem sucesso. Por isso estamos sempre, sempre, sempre pesquisando trabalhos novos e trocando ideias com os autores dos livros de referência!

 

E quanto ao veterinário especialista em silvestres, exige-se mais dele tecnicamente?

Sim, claro! Além de entender de doenças e tratamentos, o veterinário especializado em silvestre tem de saber conter o paciente e estar atento a cada detalhe durante a consulta: como chegou o paciente, em que ambiente ele vive, como está respirando, por que piscou diferente, está muito tempo na mão? O veterinário tem de estar por dentro do manejo ambiental, sanitário e alimentar de todas as espécies que se propõe a atender.

 

Hoje, quais são os casos mais recorrentes na Prosilvestres? E de que forma os exames de imagem são usados por vocês?

Alterações odontológicas em coelhos e roedores, muitos casos de micoplasma em calopsitas, e distocia e obstrução por corpo estranho em jabutis. Além, é claro, das fraturas variadas em aves que ficam fora da gaiola o dia todo.  

O exame radiográfico nos ajuda muito: avaliamos ossos, trato respiratório e TGI com um único RX. Muitas vezes, lançamos mão da ultra como complementação. Já a tomografia aparece bastante para procedimentos cirúrgicos e odontológicos.

 

 

Dra Loide, que conselhos você dá para os veterinários recém-formados que planejam trabalhar com silvestres?

Trabalhar com animais silvestres é maravilhoso, mas não é fácil! São necessários dedicação e estudo durante uma vida inteira. Meu conselho é: seja um bom clínico. E pra isso é imprescindível entender as espécies que aprendemos na faculdade: cães e gatos. Seja um bom clínico de animais de companhia, trabalhe no mínimo 6 meses em uma boa internação, aprenda a rotina do “perrengue” e, depois, se torne a especialista que você quiser.

 

Obrigado, Dra Loide.

 

PROSILVESTRES
Rua Siqueira Campos, 170, loja E
Copacabana – Rio de Janeiro

21 3507-0746
contato@prosilvestres.com.br

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